As sombras que falam

Em uma sociedade segregada por suas bolhas, na qual encarar as diferenças é um “risco” que muitos de nós preferimos não correr, o romance histórico de estreia do jornalista Jayme Brener nos convida a explorar novas possibilidades, libertando o leitor para percorrer territórios que a bolha nem sempre permite.

O primeiro desafio é geográfico. A história se passa em boa parte do tempo na Guatemala, país estranho a leitores acostumados a transitar no eixo cultural EUA-Europa – perfil não muito raro de audiência no Brasil. No início da obra, a fronteira a ser quebrada, portanto, é esta: permitir que nosso olhar se aprofunde nas distantes entranhas da América Latina.

Nessa Guatemala dos anos 1930, o cenário é o governo de Jorge Ubico Castañeda, que “combinava intensa repressão política e ultraliberalismo econômico”, nas palavras do autor. Um sistema que beneficiava grupos estrangeiros, mas por outro lado era duro com opositores locais e indígenas. E fica a cargo de quem lê considerar se a Guatemala desse período foi escolhida por acaso.

O livro traz à tona os riscos de um governo entusiasta de escolas com disciplina militar, que desdenha de minorias e flerta com regimes ditatoriais – e somente após pressões norte-americanas acaba se posicionando ao lado dos aliados na Segunda Guerra.

É desse cenário perturbador e opressivo que surge liderado pelos povos indígenas um plano para matar Hitler. E é a partir das ruínas da civilização Maia que Brener constrói uma das metáforas mais bonitas do livro para se referir às populações invisíveis (leia-se, marginalizadas) que povoaram e continuam a povoar diversos países.  

Diz um dos personagens indígenas: “Nossa civilização [maia] não existe há mil anos, mas nós estamos por todos os cantos, como vocês já puderam ver. Para os brancos não existimos (…). Mas nós sabemos que existimos, assim como nossas famílias, nossas tradições, nossos anciãos (…). Somos as sombras que falam”.   

Vozes que resistem a se calar

A presença da Guatemala de Jorge Ubico Castañeda na obra lembra que, por mais interessado que esteja em se reproduzir, o capital jamais poderá ignorar os marginalizados. Eles participam de uma revolução muitas vezes silenciosa que em algum momento cobrará da sociedade um ruidoso preço e uma esquecida humanidade.

Nesse ponto vale destacar mais uma escolha acertada de Brener. Na história, a principal região onde esses indígenas vivem chama-se Tikal, que, embora signifique “reservatório de água”, o autor traduziu como “o lugar das vozes”, uma opção, segundo ele, exclusivamente literária. E que parece funcionar como um reforço do paradoxo do indígena excluído: o objeto de busca dos homens da tribo, a voz, é o que dá nome à sua terra de origem.

Voz semelhante às vozes que a Alemanha nazista teve sucesso em calar do outro lado do Atlântico. No Velho Continente, passamos a acompanhar a história de quatro personagens judeus. Um professor universitário homossexual, um operário e um casal de cafetões. Os personagens evidenciam que mesmo grupos aparentemente homogêneos, como os judeus ou qualquer outro, comportam enormes diferenças. E em comum cada indivíduo está sujeito a dilemas, fraquezas, particularidades e contradições.

O pai do professor, por exemplo, é um veterano do exército, que defendeu a Alemanha durante a Primeira Guerra Mundial. Um homem com o mais orgulhoso sentimento nacionalista, que se sente traído pela pátria quando Hitler inicia a perseguição aos judeus. Outro personagem, o operário, incorpora-se na Espanha às fileiras da resistência contra o fascismo. E vê-se ele próprio ameaçado diante das divisões entre os grupos que compunham essa resistência – precisando fugir daqueles que, inicialmente imaginava, seriam seus companheiros de luta.  

O casal de cafetões ao mesmo tempo que realiza tráfico internacional de pessoas, trazendo jovens polonesas para a zona de prostituição do Rio de Janeiro (referência à história verdadeira das polacas), dá demonstrações de amor, carinho e cumplicidade. Na obra, Brener mostra que nada é tão óbvio quanto nosso olhar precipitado parece querer nos convencer de que é.

Esse pequeno grupo de judeus aceita participar ao lado dos indígenas de um plano para matar Hitler. Eles contam com o apoio inusitado de oficiais do exército alemão para executá-lo, resgatando a história real de militares como o general Hans Oster e o major Friedrich Heinz. Ambos estiveram ao lado dos nazistas, mas se tornaram posteriormente grandes conspiradores do regime, envolvidos em um dos mais conhecidos golpes contra o führer, em agosto de 1944, entre outras tentativas de eliminação ainda na década anterior.

O livro de Brener é fruto de uma rica pesquisa histórica de dois anos. Sua narrativa combina personagens verdadeiros e fictícios em uma trama movimentada, recheada de explicações didáticas no fim dos capítulos, que facilitam a vida de quem não é especialista nesses temas.

A dualidade no jeito de ser dos personagens permanece até o fim do texto. Personalidades com gradações e contrastes que o sujeito do século XXI nem sempre está disposto a enxergar, talvez porque o tirem de sua zona de conforto. Se o diferente incomoda, descubra o quanto você o tolera. Apenas tome cuidado para o algoz não ser você.

Os cinco dedos do Tikal – Comunistas, judeus, putas e índios às vésperas da Segunda Guerra
Autor: Jayme Brener
Editora: ExLibris
Páginas: 358